No início dos anos 70, refugiados da guerra colonialista do estado português, foram construindo os seus lares em humildes barracas num terreno abandonado na periferia de Lisboa. A outrora Quinta do Outeiro e mais tarde Pata da Burra, governada por um agricultor de apelido Moura e abandonada uma década antes,acolhia agora retornados e refugiados e mais tarde alguns comandos africanos abandonados pelo governo português em 1974.
Construía-se assim uma pequena comunidade essencialmente cabo-verdiana a que se vieram juntar mais pessoas de outras origens.

" ...uma pequena comunidade essencialmente cabo-verdiana a que se vieram juntar mais pessoas de outras origens."

A coisa mais urgente para um naufrago são os símbolos. Esqueçam os botes e os coletes: dêem-lhe um símbolo; uma ideia a que se agarre e essa ideia será o farol de multidões.
E assim, assisti pela primeira vez em 2024, na Cova da Moura com um rio de gente, do bairro e de fora, às festas de Colá San Jon, um símbolo que alumia uma população saudosa da terra natal e gerações mais novas que renovam os símbolos todos os dias.
A festa do Colá San Jon é uma celebração vibrante que ocorre anualmente na Cova da Moura, no concelho da Amadora, durante o mês de junho. Este evento, que mistura fé, cultura e tradição, é o único elemento de origem não-portuguesa integrado no Inventário do Património Cultural Imaterial de Portugal. Trazida de Cabo Verde, especialmente das ilhas do Barlavento – Santo Antão, São Vicente e São Nicolau –, a festa reflete a riqueza cultural cabo-verdiana, marcada pela fusão de influências europeias e africanas.

" Esta junção de sagrado e profano expressa a essência crioulizada do evento..."

Tendo como ponto central o dia de São João, santo popular amplamente venerado nas ilhas cabo-verdianas esta festividade combina procissões religiosas, com o andor do santo sendo carregado pelas ruas, e momentos de pura alegria e dança ao som dos tambores e das koladeiras. Esta junção de sagrado e profano expressa a essência crioulizada do evento, resultado da adaptação das festas juninas de origem europeia ao contexto cultural das ilhas e da diáspora cabo-verdiana.

Uma das marcas distintivas da festa é a dança do Colá San Jon, que cativa tanto pela sua sensualidade quanto pela sua energia contagiante. A dança, caracterizada pelo embate de baixos ventres – ou “umbigada” –, é uma manifestação vibrante de ritmo e paixão, impulsionada pelos sons intensos dos tambores. Este momento é uma expressão visceral da identidade cultural cabo-verdiana, carregada de simbolismo e emoção.
Embora as festas juninas tenham sido inicialmente introduzidas em Cabo Verde pelos colonizadores portugueses, foram rapidamente transformadas e apropriadas pelos povos das ilhas, tornando-se uma parte intrínseca da sua cultura. Essa adaptação também reflete a diversidade de influências culturais que formaram a identidade cabo-verdiana, através da interação entre africanos e europeus, condicionada pelas relações tensas entre escravizados e esclavagistas.
A festa do Kola San Jon é, assim, muito mais do que um evento festivo: é um símbolo vivo da herança cultural cabo-verdiana e da resiliência da sua diáspora em preservar e reinventar as tradições de Cabo Verde.